Abordagem que integra diagnóstico e tratamento, a teranóstica tem ganhado impulso com o surgimento de novos radiofármacos. Atualmente, tem aplicações principalmente em oncologia, mas outras especialidades, como a cardiologia e a neurologia, começam a explorar esse potencial
A pesquisa e o desenvolvimento de novas moléculas radioativas têm impulsionado uma das frentes mais promissoras da medicina de precisão: a teranóstica, estratégia que utiliza radiofármacos tanto para identificar quanto para atacar células doentes, reduzindo impactos em tecidos saudáveis. Integrando diagnóstico e tratamento, essa abordagem tem registrado avanços significativos em oncologia e outras especialidades, como neurologia e cardiologia.
Os primeiros passos da teranóstica foram dados ainda nos anos 1940, com a utilização do iodo-131 no tratamento do câncer de tireoide. As células dessa glândula concentram muito mais iodo do que outros tecidos, pois dependem dele para produzir hormônios. Dessa forma, o radiofármaco é absorvido pelas células da tireoide, permitindo seu uso no exame de imagem para a detecção de tumores e metástases e, posteriormente, no tratamento, destruindo seletivamente as células doentes.
Com o progresso da biologia molecular a partir dos anos 1990, novas moléculas e novos radioligantes começaram a ser desenvolvidos, capazes de agir sobre diferentes tipos de cânceres, como os de próstata, fígado e tumores neuroendócrinos. Também permitem investigar e tratar lesões em vasos cardíacos. E novos horizontes da teranóstica estão no foco de pesquisas envolvendo doenças neurológicas como Alzheimer, Parkinson e epilepsia.
Segundo o Dr. Marcos Roberto Queiroz, diretor de Medicina Diagnóstica do Einstein, o ritmo desses avanços é ditado pelo desenvolvimento de novas moléculas e radioligantes, consolidando a teranóstica como uma das principais modalidades da medicina personalizada, oferecendo maior precisão, menos efeitos colaterais e melhores resultados.
O Einstein tem participado ativamente dessa jornada. Em 2012, modernizou sua radiofarmácia e, no ano seguinte, passou a produzir internamente o radiofármaco DOTATATE marcado com gálio-68, destinado a tumores neuroendócrinos com expressão de receptores de somatostatina. Em 2014, tornou-se um dos primeiros centros do país a realizar radioembolização com Ítrio-90 para metástases hepáticas. Em 2015, iniciou a produção interna do radiofármaco PSMA com gálio-68 para o tratamento do câncer de próstata. Já metástases ósseas do câncer de próstata podem ser tratadas com rádio-223, enquanto o neuroblastoma pode ser abordado com MIBG-I131. A organização também tem investido em pesquisas na área e na formação de profissionais especializados.
O uso de inteligência artificial (IA) e big data promete acelerar os avanços da teranóstica. Algoritmos de IA, por exemplo, podem interpretar exames de PET (tomografia por emissão de pósitrons), SPECT (tomografia computadorizada por emissão de fóton único) e ressonância magnética com maior precisão, identificando padrões sutis em tumores ou lesões que poderiam passar despercebidos, além de auxiliar na escolha do radiofármaco mais eficaz. A IA também tem potencial para acelerar a descoberta de novos radiofármacos.
Além disso, a combinação de dados clínicos, genômicos e de imagem em grandes bases de dados possibilita prever quais pacientes têm maior probabilidade de responder a determinado tratamento, aumentando a eficácia e reduzindo efeitos colaterais. Por meio de algoritmos cada vez mais avançados é possível, ainda, analisar resultados de centenas ou milhares de pacientes, ajustando protocolos e personalizando ainda mais a terapia.
A teranóstica tende a ocupar um espaço cada vez mais central na medicina de precisão, expandindo suas aplicações nas especialidades onde já é utilizada e, certamente no futuro, em outras áreas da atividade médica. São avanços que alargam os horizontes para diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes e seguros, adotados sob medida para cada paciente.

